Coletânea dos textos

A Casa Verde foi o nome dado por mim à região do ciberespaço onde podem ser encontradas essas novas (?) formas de expressão artística - "Net Art" ou "Web Art" - por alusão à cor verde elétrica muito utilizada na Internet, especialmente nos seus linques e, também, é lógico, pela aproximação que fiz com a obra de Machado de Assis. A Casa Verde sobre a qual estou escrevendo pode ser acessada por Itaguaí, por todas as vilas e povoações próximas e remotas a ela, pela própria cidade do Rio de Janeiro e enfim, por toda e qualquer latitude ou longitude deste nosso planeta Terra. Muitos artistas já estão explorando e pesquisando esse novo suporte de arte, que, apesar de matemático, a meu ver, tem muito mais de asa de borboleta - arte e loucura num suporte do vir a ser.

Hoje o ciberespaço oferece-nos mil possibilidades de estar à deriva ou de encontrarmos um porto seguro em meio aos intrincados caminhos de sua cartografia. A "Net Art" ou "Web Art" se encaixaria em qual dessas duas opções?

Não sei bem quando a Casa Verde foi inaugurada, mas o fato é que ao cabo destes sete anos em que a observo, ainda não expiraram as experiências ; em Itaguaí e em todo o resto do mundo existe a possibilidade de acessar e usufruir desse território aberto da Arte que teimo em denominar Casa Verde.




E tinha razão. De todas as cidades e lugarejos perdidos no mundo afluíram artistas à Casa Verde. No início eram aqueles que queriam expor suas criações tradicionais: pinturas, gravuras, esculturas, ..., - alguns , viam na web uma janela para o mundo, outros estavam furiosos com as dificuldades e barreiras de fazer parte dos circuitos de arte tradicionais. Ao cabo de algum tempo, a Casa Verde era uma povoação. Não se contentaram em apenas criar galerias virtuais; começaram a utilizar a rede como suporte da arte. Eu mesma, imaginando então que era uma pioneira, criei o "Cyber Circus" em 1998 - um circo que não possuía picadeiro mas cujas atrações estavam em toda a parte, pouco depois porém descobri a existência de mais "doidos* no mundo, e mergulhei fascinada no inexplicável prazer de experimentar e inventar uma nova linguagem. Algum amigo que encontrava e que não me via há algum tempo não queria acabar de crer. Quê! uma artista que ele vira, três meses antes, pintando em acrílico sobre tela...

* A palavra loucura é ambígua e, em se tratando de arte, emprego-a aqui como a curiosidade que o ser humano tem e que o faz buscar a razão, a invenção, a verdade para a sua existência.
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Os loucos por letras, números e cores tinham endereço certo no jodi.org. Haviam também os que se dedicavam especialmente a inteligência artificial, entre estes, Karl Sims, que podia ser encontrado no genarts.com. Havia ainda o Aleph, o Rhizome, o Alt X, a Casa das Rosas, todos enfocando seriamente o binômio Arte / Ciência e, por consequência, com endereço certo na Casa Verde,
E também por lá se encontrava o Potatoland com a antropofagia de Mark Napier no RioT; e Alba, a coelhinha luminosa criação de Eduardo Kac; o serpentário da Universidade Federal de Caxias do Sul, Projeto INSN(H)AK(R)ES dirigido pela Professora Diana Domingues; uma linha negra e virtual, provavelmente a maior obra de arte do mundo, se não, da história da da arte, pois possuia cerca de 568,188 km..!, do meu amigo virtual Joéser Alvarez; a revista Arte on Line que mostrava parte disso que estava acontecendo na Casa Verde; e muitas experiências com arte transgênica, com telepresença, com interatividade, com poesia visual, com livros eletrônicos, com hipertextos, jogos e o que mais se pudesse inventar.
Assim, por interesse artístico e científico eu ia descobrindo na Casa Verde todas essas novas linguagens que só se tornaram possíveis através da Ciência.
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Eu fiz um gesto magnífico, e respondi:

- Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Escrevo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra coisa, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A união da Arte e da Ciência, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano; começo a suspeitar que em breve se tornará um continente.

Disse isto, e calei-me, para ruminar o pasmo de todos à minha volta. Depois expliquei compridamente a minha idéia. No meu conceito a utilização da Ciência pela Arte e vice-versa se tornaria mais e mais comum; e desenvolvi isto com grande cópia de raciocínios, de textos de bons autores, de exemplos. Os exemplos, achei-os todos na própria Internet. Assim, apontei com especialidade alguns saites onde já se tratava do assunto. E porque todos se admirassem, eu disse-lhes que era tudo uma questão de tempo, que as Universidades teriam que investir pesado no binômio Arte e Ciência e até acrescentei sentenciosamente:

- O século XXI apostará nesta união de várias formas e uma delas, sem dúvida será uma odisséia no ciberespaço.

- Gracioso, muito gracioso! exclamaram todos levantando as mãos ao céu.



Eu refleti ainda um instante, e disse:

- Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; demarquemos definitivamente os limites da Arte e da Ciência. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; não a valorização extrema de uma em detrimento da outra.

Alguns a quem confiei a nova teoria declararam lisamente que não chegavam a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.

- Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentaram, a Arte e a Ciência estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

Sobre o meu lábio fino e discreto rogou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de minhas egrégias entranhas.


E agora prepare-se o leitor para se assombrar ao saber que alguns artistas da Casa Verde estavam agora fazendo trabalhos colaborativos.

- Todos juntos ?

- Todos. Chamam de "Net Art".

- É impossível, "se para o artista existe uma promessa na qual ele pode confiar, esta se sintetiza na vontade de solidão". *

- Todos, não importando o continente onde estejam. Dito isto, continuei a exposição:

- 1º A Casa Verde já recrutara uma boa porção de artistas; 2° que a facilidade de comunicação entre eles levara-os a examinar os fundamentos dessas teorias onde se afirmava que a solidão era a melhor companheira da criação; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para eles a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia experimentar o trabalho colaborativo; 4º . o trabalho colaborativo não se restringiria apenas aos artistas no sentido estrito do termo, seria também a dissolução do artista na vida, dando a possibilidade do anônimo criar; 5° que, tratando de descobrir a verdade científica, não se poupariam esforços de toda a natureza para superar os egos; 6º que esta identidade do artista com o coletivo não seria a sua morte e que a arte interativa, eliminaria as barreiras exclusivas e liberaria a ação do fruidor, sua resposta...


Ao cabo de algum tempo começou-se a questionar o que seria realmente "net art" pois limites como conexão e "browsers" estavam sendo superados e, ironicamente, apesar desse progresso havia um processo de homogeneização da "net art", e muito do que se via seriam novos clichês. Eu não afrouxava; ia de saite em saite, de página web em página web, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um bom exemplo observava-o com a mesma alegria com que outrora os arrebanhava às dúzias. Essa mesma desproporção confirmava esses novos questionamentos. Na Casa Verde muitos estavam caindo nessas armadilhas de clichês; eu procedia com escrúpulo e só depois de estudar minuciosamente a situação tentaria redigir um texto / manifesto sobre o que poderia ser considerado realmente "net art".

Organizei os artistas e saites por categorias. Fiz, por exemplo uma categoria dos que usavam Flash; esta era dividida em duas classes: aqueles em que predominava a inventividade e a outra que era a dos maneiristas, que usavam o programa da mesma maneira que qualquer saite comercial; outra de pseudos "hackers", que insistiam ainda em viroses e coisas desse tipo; outra que insistia em explicações num conteúdo que devia ser descoberto pela interatividade; outra de sagazes que se apropriavam das imagens de outros saites, em vez de criar as suas próprias, assim, cuidadosamente fui criando categorias e tentando separar o joio do trigo. *
* Texto inspirado no artigo "Six Rules Towards A New Internet Art", de Eryk Salvaggio (http://www.rhizome.org)

Chegando a esta conclusão, tive duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com os críticos, podia afirmar esta verdade: - a categoria "Net Art" - "Web Art" já ocupava um território extenso dentro das fronteiras da arte - a Casa Verde - ela estava sendo pensada e construída simultaneamente por muitos artistas de várias coordenadas terrestres. Mas tão depressa esta idéia me refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a idéia da dúvida. Pois quê! Em Itaguaí e no resto do mundo ainda havia muita gente que não acreditava nisso. Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova forma de arte?

Minha aflição foi definida pelos amigos como uma das mais medonhas tempestades intelectuais que têm desabado sobre uma "web artista". Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão. Vinte minutos depois alumiou-se a minha fisionomia com uma suave claridade.

- Sim, há de ser isso, pensei...

- Por um lado a questão era comercial, pensava; tratava-se de uma forma de arte relativamente nova, que até agora tinha pouco ou nenhum valor de mercado. A sociedade atual é regida pela mídia e pelo mercado...

- Isso e isto: Ciência e Arte eram territórios fronteiriços. Havia um espaço limiar entre eles. Esse espaço correspondia ao espaço da Casa Verde.

- Nenhuma regra ?

- Nenhuma

- Tudo é válido?

- Tudo. A arte, na web ou fora dela, tem que ser é de boa qualidade, tem que despertar a emoção do fruidor; "o artista cria para si mesmo - unicamente para si mesmo. A criação do artista é uma insígnia: a partir de seu íntimo ele exterioriza todas as coisas pequenas e efêmeras: seu sofrimento, seus desejos vagos, seus sonhos angustiados e aquelas alegrias que perdem o viço. Aí sua alma se engrandece e torna-se festiva, e ele criou o lar digno para si mesmo." 1

Entrei na Casa Verde, fiz dela o meu lar. "Muitas vezes sinto uma nostalgia tão grande de mim mesma e, sei que o caminho ainda é longo, mas nos meus melhores sonhos entrevejo o dia em que poderei me acolher." 2 Não pretendo sair dela. Afinal, qual a linha que separa o dentro do fora? "O criador é o homem póstero, aquele para além do qual se encontra o futuro." 3

 
Regina Célia Pinto / Leblon, Rio de Janeiro, 2002